Compreendo e aprovo a onda mundial de legitimar os M.F, e como isto repercuti positivamente na implementação de políticas públicas para mulheres de uma forma geral. Todo este respeito mundial construído com o passar das décadas de militância é um resultado de grandes batalhas, ainda infindáveis, entretanto será que não estamos vivendo uma nova performance do machismo? Não estão todos agora querendo personificar um politicamente correto, para assim tentar calar todas estas mulheres “histéricas e lésbicas”, como é visto, ainda hoje, o M.F? Existe uma nova versão do movimento machista “organizado” que não deve ser posto de lado e nem interpretado como paranóia feminista.
Os ganhos são incontestáveis, mas as novas máscaras também são. A Constituição brasileira de 1988 destitui formalmente o pátrio poder, entretanto em que espaço o homem não é o centro do comando? Os grandes poderes, Executivo, Legislativo e Judiciário, têm seu percentual de mulheres, mas estas são vistas e respeitadas da mesma forma? Ou estas têm que a todo o momento que delimitar espaço e demonstrar que merecem estar ali? Marta Suplicy, grande, principiante na luta de mulheres nos partidos políticos, simbolicamente prefiro Benedita da Silva, que escreveu belíssimos artigos sobre a mulher no Brasil, como exemplo a sua tese de mestrado: Papel da Mulher na Ação Comunitária nos Seguimentos Carentes da População, que contribui diretamente para mudanças siginificas do papel feminino no espaço barsileiro, laém de ser uma mulher e negra e quais são os comentários feitos sobre ela? É sempre válida a luta, mas também é coerente observar de que forma os ganhos são encarados. Observe o âmbito do Movimento Feminista Negro (MFN), deparamos com algumas situações mais complexas, que serão expostas no próximo parágrafo.
Não concordo, plenamente, com o termo enegrecendo o feminismo, citado no texto de Sueli Carneiro, está expressão dá a entender que a mulher negra entra no movimento feminista, após deste formado, e a partir daí começam a colocar algumas demandas específicas ou simplesmente o compõe mudando a melanina do movimento. As mulheres negras sempre foram feministas não institucionalizadas , exemplificando; a Irmandade da Boa Morte, os terreiros de candomblé chefiado por mulheres negras ou as baianas de acarajé (Detenho-me as formas de militância de mulheres negra da Bahia).
Algumas questões devem ser pautadas quando é legitimado o “enegrecimento” do feminismo por algumas autoras, inclusive Carneiro. Uma delas: O M..F. está disposto a conviver com opiniões divergentes e construir um novo movimento? Nada é concedido, concordo, mas a questão feminista é aceita mundialmente após anos de luta, e a questão racial, que tem séculos sendo discutida, é tão bem aceita? Às vezes acredito que minha filha terá que falar as mesmas frases que eu, para convencer às pessoas de que o racismo existe, para sim exigir políticas públicas, isto é bem cansativo.
Temos dois grandes problemas no imaginário do movimento feminista brasileiro. O primeiro diz respeito que não começamos o movimento feminista, depois das brancas, a nossa inclusão no movimento “delas” não foi tardia, apenas nunca se obteve destaque, no primeiro Navio Negreiro, em que mulheres se jogavam no mar, cuidavam de seus homens, de seus filhos e dos seus cultos religiosos de forma sigilosa, representam as formas diretas de feminismo, não precisaríamos queimar sutiã para começar uma grande luta feminista, porquê nem usávamos, nossa luta começa quando abortamos com uso de ervas, para não ter os filhos amaldiçoados dos abutres brancos, isto sim foi luta feminista no século XVI no Brasil
O segundo ponto é que não dúvidas que o movimento feminista clássico é composto por algumas mulheres negras, que são grandes protagonistas, entretanto estas não conseguem as mudanças significativas como se estivessem com Núcleos negros. Não estamos falando de soma de mulheres negras, isto não é o resultado ideal, mas sim a conjunção de propostas específicas e bem elaboradas, que só terá o efeito desejado se a luta for dos próprios sujeitos interessados, falando por si mesmo e para eles mesmos.
Nos espaços feministas clássicos o quesito cor, é um a separação de lutas, uma diminuição de poder e não uma soma, como não se observa no M.F.N., muitas dessas feministas tradicionais compreendem que o racismo superlativiza os gêneros por meios de privilégios, entretanto muitas acreditam que a grande causa é empoderamento feminino e ponto final, diluindo o problema racial em apelos psicológicos de ex- escravizados.
As mulheres negras sofrem com a violência sexual, com a criminalização do aborto, com o racismo institucional de duas vias, gênero e raça, mas existe uma violência extremamente aterrorizante e aparentemente infindável que atua no setor publico e privado, atormentando qualquer mulher de cor, é a violência simbólica. E aí é você a negra maluca? Qual o papel de você negra nesta sociedade? Globeleza, Negra Maluca ou Tia Nastácia? Existe outro papel?
A proposta do M.F.N também não é uma inversão de papéis, colocar mulheres brancas para serem babás ou empregadas domésticas, mas dialogar os problemas e a construção deles, usando políticas públicas para superá-los, entretanto medidas especificas, mas sempre reinando um bom senso e comum acordo. Não é necessária uma guerra entre mulheres, mas uma analise na construção de estereótipos. Que negras não sejam Nastácia (Sítio do Pica Pau Amarelo), e nem brancas Luísa (Primo Basílio), mas que construam e controlem representações pertinentes.
Lis Y.
quarta-feira, 11 de março de 2009
sábado, 27 de dezembro de 2008
RELATÓRIO DO IPEA CONFIRMA O QUE AS MULHERES NEGRAS JÁ SABEM
Em seu último "Boletim Mercado de Trabalho - Conjuntura e Análise",publicado em novembro de 2008, o IPEA (Instituto de Pesquisas Econômicas e Aplicadas) revelou que as mulheres negras são as mais excluídas do mercado de trabalho, tanto em renda quanto em acesso a empregos formais ou de maior status social.
A nota técnica "DIFERENCIAIS DE RENDIMENTOS POR SEXO E RAÇA", baseada na Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílios(PNAD)do IBGE, revela que:
"Conforme se observa, há diferenças significativas de rendimento entre os grupos. Homens negros, mulheres brancas e mulheres negras auferem rendimentos correspondentes, respectivamente, a 54,2%, 79,8% e 48,7% dos rendimentos dos homens brancos. Tais dados revelam que os diferenciais de rendimentos no mercado de trabalho são muito maiores por raça do que por sexo. De fato, enquanto os rendimentos das mulheres equivalem a 85% do auferido pelos homens, no caso dos negros os rendimentos representam cerca de 57% dos rendimentos dos trabalhadores brancos."
"Em qualquer um dos grupos considerados (homens negros, mulheres brancas e mulheres negras) é possível notar que o diferencial de rendimentos aumenta com a idade. A relação entre o rendimento/hora de um homem negro em relação a um homem branco é de 75,7% na faixa etária dos 18 aos 24 anos, diminuindo até alcançar 42,9% na faixa dos 55 aos 60 anos. As mulheres negras, por sua vez, ingressam no mercado de trabalho ganhando 69,1% do rendimento/hora dos homens brancos entre os 18 e 24 anos, e terminam com rendimentos que representam 38,6% dos rendimentos dos homens brancos. Em ambos os casos, é possível notar que o a discriminação no mercado de trabalho possui um efeito cumulativo sobre o rendimento de mulheres e negros ao longo de sua trajetória laboral."
"No caso dos homens negros, o padrão de discriminação é menos correlacionado
com a escolaridade: tanto os trabalhadores com menos de 3 anos de estudo quanto aqueles nas faixas de 8 a 11 anos de estudo apresentam um diferencial de rendimentos menor em relação aos homens brancos."
O relatório conclui que houve redução no processo de exclusão das mulheres negras no mercado de trabalho, como consequência de um crescimento real da renda da maioria dos brasileiros nos últimos anos.
Entretanto, as desigualdades raciais e sexuais no mercado de trabalho persistem, afligindo ainda de forma mais perversa as mulheres negras. É importante que a renda da população cresça de forma significativa mas, consideramos indispensável que políticas reais de reparação sejam efetivadas, através de políticas públicas de ações afirmativas e de uma posição mais efetiva do estado brasileiro em relação a este tipo de desigualdade.
A discriminação racial e de gênero no mercado de trabalho será minimizada quando o Estado convocar o empresariado nacional para discutir seriamente esta questão, garantindo cotas e programas de Responsabilidade Social que levantem o debate sobre o respeito à diversidade de raça, de gênero e de orientação sexual.
A exclusão das mulheres negras nos espaços de poder será minimizada quando os governos exigirem dos meios de comunicação de massa que garantam espaços para as mulheres negras fora dos cenários da cozinha e da senzala das novelas. E, também, determine que as desigualdades raciais e sexuais sejam apresentadas de maneira ética e responsável.
A desigualdade em relação aos rendimentos de negros e brancos será minimizada quando for realizado um plano nacional de ações afirmativas nas universidades públicas federais, que garanta o acesso, a permanência e o encaminhamento do aluno negro e cotista ao mercado de trabalho. Para tanto, uma vez reconhecida as disparidades raciais - como a apresentada no "Boletim Mercado de Trabalho - Conjuntura e Análise" de nov.2008 do IPEA e em outras publicações - É NECESSÁRIO QUE COTAS RACIAIS SEJAM IMPLANTADAS.
PELA APROVAÇÃO IMEDIATA DO ESTATUTO DA IGUALDADE RACIAL!
POR COTAS RACIAIS NAS UNIVERSIDADES E NO SERVIÇO PÚBLICO!!
POR UMA INSERÇÃO RESPONSÁVEL DAS MULHERES NEGRAS NA MÍDIA!!!
O PÉROLAS NEGRAS - NÚCLEO DE ESTUDANTES NEGRAS DA UFBA AFIRMA QUE NÃO BASTA ANALISAR E RECONHECER O PROBLEMA, É PRECISO QUE SEJAM GARANTIDOS ESPAÇOS DE PODER PARA AS NEGRAS E NEGROS.
A nota técnica "DIFERENCIAIS DE RENDIMENTOS POR SEXO E RAÇA", baseada na Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílios(PNAD)do IBGE, revela que:
"Conforme se observa, há diferenças significativas de rendimento entre os grupos. Homens negros, mulheres brancas e mulheres negras auferem rendimentos correspondentes, respectivamente, a 54,2%, 79,8% e 48,7% dos rendimentos dos homens brancos. Tais dados revelam que os diferenciais de rendimentos no mercado de trabalho são muito maiores por raça do que por sexo. De fato, enquanto os rendimentos das mulheres equivalem a 85% do auferido pelos homens, no caso dos negros os rendimentos representam cerca de 57% dos rendimentos dos trabalhadores brancos."
"Em qualquer um dos grupos considerados (homens negros, mulheres brancas e mulheres negras) é possível notar que o diferencial de rendimentos aumenta com a idade. A relação entre o rendimento/hora de um homem negro em relação a um homem branco é de 75,7% na faixa etária dos 18 aos 24 anos, diminuindo até alcançar 42,9% na faixa dos 55 aos 60 anos. As mulheres negras, por sua vez, ingressam no mercado de trabalho ganhando 69,1% do rendimento/hora dos homens brancos entre os 18 e 24 anos, e terminam com rendimentos que representam 38,6% dos rendimentos dos homens brancos. Em ambos os casos, é possível notar que o a discriminação no mercado de trabalho possui um efeito cumulativo sobre o rendimento de mulheres e negros ao longo de sua trajetória laboral."
"No caso dos homens negros, o padrão de discriminação é menos correlacionado
com a escolaridade: tanto os trabalhadores com menos de 3 anos de estudo quanto aqueles nas faixas de 8 a 11 anos de estudo apresentam um diferencial de rendimentos menor em relação aos homens brancos."
O relatório conclui que houve redução no processo de exclusão das mulheres negras no mercado de trabalho, como consequência de um crescimento real da renda da maioria dos brasileiros nos últimos anos.
Entretanto, as desigualdades raciais e sexuais no mercado de trabalho persistem, afligindo ainda de forma mais perversa as mulheres negras. É importante que a renda da população cresça de forma significativa mas, consideramos indispensável que políticas reais de reparação sejam efetivadas, através de políticas públicas de ações afirmativas e de uma posição mais efetiva do estado brasileiro em relação a este tipo de desigualdade.
A discriminação racial e de gênero no mercado de trabalho será minimizada quando o Estado convocar o empresariado nacional para discutir seriamente esta questão, garantindo cotas e programas de Responsabilidade Social que levantem o debate sobre o respeito à diversidade de raça, de gênero e de orientação sexual.
A exclusão das mulheres negras nos espaços de poder será minimizada quando os governos exigirem dos meios de comunicação de massa que garantam espaços para as mulheres negras fora dos cenários da cozinha e da senzala das novelas. E, também, determine que as desigualdades raciais e sexuais sejam apresentadas de maneira ética e responsável.
A desigualdade em relação aos rendimentos de negros e brancos será minimizada quando for realizado um plano nacional de ações afirmativas nas universidades públicas federais, que garanta o acesso, a permanência e o encaminhamento do aluno negro e cotista ao mercado de trabalho. Para tanto, uma vez reconhecida as disparidades raciais - como a apresentada no "Boletim Mercado de Trabalho - Conjuntura e Análise" de nov.2008 do IPEA e em outras publicações - É NECESSÁRIO QUE COTAS RACIAIS SEJAM IMPLANTADAS.
PELA APROVAÇÃO IMEDIATA DO ESTATUTO DA IGUALDADE RACIAL!
POR COTAS RACIAIS NAS UNIVERSIDADES E NO SERVIÇO PÚBLICO!!
POR UMA INSERÇÃO RESPONSÁVEL DAS MULHERES NEGRAS NA MÍDIA!!!
O PÉROLAS NEGRAS - NÚCLEO DE ESTUDANTES NEGRAS DA UFBA AFIRMA QUE NÃO BASTA ANALISAR E RECONHECER O PROBLEMA, É PRECISO QUE SEJAM GARANTIDOS ESPAÇOS DE PODER PARA AS NEGRAS E NEGROS.
terça-feira, 16 de dezembro de 2008
segunda-feira, 8 de dezembro de 2008
CASA GRANDE E SENZALA EM QUADRINHOS
A REPRODUÇÃO E A NATURALIZAÇÃO DA VIOLÊNCIA RACIAL E DE GÊNERO NAS SALAS DE AULA
A imagem e o comentário acima foi retirado da obra intitulada “Casa Grande & Senzala em Quadrinhos”. Trata-se de uma versão juvenil e facilitada,republicada no ano de 2005 pela Fundação Gilberto Freyre e Global Editora.
A VERSÃO EM QUADRINHOS DO LIVRO É UTILIZADA EM DIVERSAS ESCOLAS DO PAÍS.
O livro em quadrinhos se propõe a reproduzir uma visão distorcida e discriminatória da História do Brasil, perpetuando uma interpretação centrada no olhar da Casa Grande e invisibilizando a participação política, intelectual e econômica da população negra e indígena pela própria versão desses sujeitos.
As imagens e frases reproduzem, de forma simplória e equivocada, o mito da democracia racial, que, por meio de um processo de revisionismo, desconsidera a opressão, tortura e exploração ocorridas na escravidão colonial, escamoteia e naturaliza os processos de violência física e simbólica sobre crianças, mulheres e homens negros e indígenas. Chegam ao extremo de dar explicações inacreditáveis às práticas de tortura contra escravizados/as.
Naturalização da opressão e violência contra as mulheres negras e indígenas

Na obra contestada, o recurso à imagem potencializa exponencialmente os efeitos danosos da argumentação que, em si mesma, pode ser considerada um libelo racista e sexista: são imagens plasticamente perfeitas, atrativas, que corporificam visualmente as idéias que o texto
apenas sugere.
Ora, a carga simbólica que trazem os desenhos de mulheres negras e indígenas nuas ao lado de homens e mulheres brancas vestidos, e que mostram crianças negras “montadas” por crianças brancas, e outras imagens de igual teor, vem ao encontro de um imaginário nacional em que mulheres negras e indígenas são desconsideradas em sua dignidade humana, reforçando o caráter de objeto sexual e de despersonalização com que o processo de formação nacional as tratou, justificando este imaginário.
A relação de poder estabelecida sobre mulheres indígenas, que se trata hoje do reconhecimento histórico exigido pelos movimentos indígenas brasileiros, é distorcida de tal modo a representar os corpos das índias ressaltando uma suposta “sensualidade natural”, criando modelos idealizados das mesmas que, pela idéia transcrita no texto, se submetiam como objetos de desejo sexual do colonizador.
Da mesma forma, as mulheres negras são descritas como seres de sexualidade ativa e tão-somente objetos de prazer do homem português, considerado, por essa espécie de opressão, mais “tolerante” que outras nacionalidades de colonizadores.
A imagem da mulher negra e indígena vem sendo veiculada, ao longo destes 508 anos de
história, com base em um paradigma, que é o da inferioridade e desconstituição de sua
humanidade. Como desdobramento desse paradigma, podemos elencar inúmeros prejuízos.
A discriminação resultante da utilização destes estereótipos está não somente na violência simbólica contra a mulher; há ainda que se considerar os efeitos deste paradigma no que se refere à violência física e psicológica, concretizada nos números do tráfico de seres humanos, da violência sexual, doméstica e infra-familiar contra meninas e mulheres.

Tais formas de violência traduzem o sentido de dominação sobre o corpo feminino, um sentido que surge cinicamente na publicidade em geral e nas novelas e se concretiza na crença da superioridade masculina que resulta nos espancamentos, assédios e abusos sexuais, representando o poder que se busca impor através da satisfação dos interesses, desejos ou dos conflitos doentios dos algozes, sejam eles sexuais ou emocionais, mas também dos cidadãos e cidadãs comuns que constroem suas identidades, expectativas e desejos num dos únicos espaços em que têm acesso a outras linguagens e expressões culturais além daquelas da sua comunidade, que é através da mídia de massa. Repetidamente expostos a essas idéias, têm um potencial maior para repetirem esses mesmos valores.
Da mesma forma, esse paradigma confirma a naturalização das desigualdades de gênero que, articuladas às desigualdades raciais, se apresentam nas assimetrias quanto aos direitos sociais, econômicos e culturais, das quais o segmento mais vulnerabilizado pela fragilidade das instituições garantidoras do acesso à justiça é, sem sombra de dúvidas, o segmento de mulheres negras.

FONTE: OBSERVATÓRIO DO NEGRO.

A imagem e o comentário acima foi retirado da obra intitulada “Casa Grande & Senzala em Quadrinhos”. Trata-se de uma versão juvenil e facilitada,republicada no ano de 2005 pela Fundação Gilberto Freyre e Global Editora.
A VERSÃO EM QUADRINHOS DO LIVRO É UTILIZADA EM DIVERSAS ESCOLAS DO PAÍS.
O livro em quadrinhos se propõe a reproduzir uma visão distorcida e discriminatória da História do Brasil, perpetuando uma interpretação centrada no olhar da Casa Grande e invisibilizando a participação política, intelectual e econômica da população negra e indígena pela própria versão desses sujeitos.
As imagens e frases reproduzem, de forma simplória e equivocada, o mito da democracia racial, que, por meio de um processo de revisionismo, desconsidera a opressão, tortura e exploração ocorridas na escravidão colonial, escamoteia e naturaliza os processos de violência física e simbólica sobre crianças, mulheres e homens negros e indígenas. Chegam ao extremo de dar explicações inacreditáveis às práticas de tortura contra escravizados/as.
Naturalização da opressão e violência contra as mulheres negras e indígenas

Na obra contestada, o recurso à imagem potencializa exponencialmente os efeitos danosos da argumentação que, em si mesma, pode ser considerada um libelo racista e sexista: são imagens plasticamente perfeitas, atrativas, que corporificam visualmente as idéias que o texto
apenas sugere.
Ora, a carga simbólica que trazem os desenhos de mulheres negras e indígenas nuas ao lado de homens e mulheres brancas vestidos, e que mostram crianças negras “montadas” por crianças brancas, e outras imagens de igual teor, vem ao encontro de um imaginário nacional em que mulheres negras e indígenas são desconsideradas em sua dignidade humana, reforçando o caráter de objeto sexual e de despersonalização com que o processo de formação nacional as tratou, justificando este imaginário.
A relação de poder estabelecida sobre mulheres indígenas, que se trata hoje do reconhecimento histórico exigido pelos movimentos indígenas brasileiros, é distorcida de tal modo a representar os corpos das índias ressaltando uma suposta “sensualidade natural”, criando modelos idealizados das mesmas que, pela idéia transcrita no texto, se submetiam como objetos de desejo sexual do colonizador.
Da mesma forma, as mulheres negras são descritas como seres de sexualidade ativa e tão-somente objetos de prazer do homem português, considerado, por essa espécie de opressão, mais “tolerante” que outras nacionalidades de colonizadores.
A imagem da mulher negra e indígena vem sendo veiculada, ao longo destes 508 anos de
história, com base em um paradigma, que é o da inferioridade e desconstituição de sua
humanidade. Como desdobramento desse paradigma, podemos elencar inúmeros prejuízos.
A discriminação resultante da utilização destes estereótipos está não somente na violência simbólica contra a mulher; há ainda que se considerar os efeitos deste paradigma no que se refere à violência física e psicológica, concretizada nos números do tráfico de seres humanos, da violência sexual, doméstica e infra-familiar contra meninas e mulheres.

Tais formas de violência traduzem o sentido de dominação sobre o corpo feminino, um sentido que surge cinicamente na publicidade em geral e nas novelas e se concretiza na crença da superioridade masculina que resulta nos espancamentos, assédios e abusos sexuais, representando o poder que se busca impor através da satisfação dos interesses, desejos ou dos conflitos doentios dos algozes, sejam eles sexuais ou emocionais, mas também dos cidadãos e cidadãs comuns que constroem suas identidades, expectativas e desejos num dos únicos espaços em que têm acesso a outras linguagens e expressões culturais além daquelas da sua comunidade, que é através da mídia de massa. Repetidamente expostos a essas idéias, têm um potencial maior para repetirem esses mesmos valores.
Da mesma forma, esse paradigma confirma a naturalização das desigualdades de gênero que, articuladas às desigualdades raciais, se apresentam nas assimetrias quanto aos direitos sociais, econômicos e culturais, das quais o segmento mais vulnerabilizado pela fragilidade das instituições garantidoras do acesso à justiça é, sem sombra de dúvidas, o segmento de mulheres negras.

FONTE: OBSERVATÓRIO DO NEGRO.
quarta-feira, 5 de novembro de 2008
Carta aberta à Revista TRIP

Certamente a carta à Luisa, dita fictícia e publicada pela revista Trip, não foi meramente postada ao acaso. Situações como esta, na qual as mulheres são vistas como mero objeto descartável, são cotidianas na sociedade brasileira.
Culturalmente no imaginário social, os valores negativos que se atribuem à mulher são naturalizados permitindo que práticas machistas e racistas sejam legitimadas no âmbito público e privado. A carta vem reforçar atos discriminatórios que atingem a integridade física, psicológica e moral da mulher, que neste caso tange especialmente a mulher negra, visto que estas são as que historicamente constituem o quadro de empregadas domésticas em nosso país.
As idéias contidas na carta propiciam que discurso e atos machistas e racistas tomem maiores dimensões, haja vista que os próprios meios de comunicação legitimam a perpetuação da desvalorização do ser mulher. Desta forma, demonstramos nosso total repúdio ao colunista Henrique Goldman e a revista Trip por pactuarem com a violência contra a mulher, desconsiderando a luta das mulheres em todo o Brasil por condições igualitárias de gênero e de raça.
Diante do exposto, exigimos da Revista Trip e de seu colunista uma retratação pública e oficial na qual as declarações feitas na matéria sejam reconhecidas como abusivas, visto que a ficção demonstra aquilo que se constrói nas mentes dos indivíduos sobre a realidade.
PÉROLAS NEGRAS - Núcleo de Estudantes Negras da Ufba.
segunda-feira, 3 de novembro de 2008
UMA CENA COTIDIANA
Extraído de:
http://www.correionago.com.br/destaques.php?inot=169
Um taxista, motivado pelo racismo, simula uma tentativa de assalto, acusando os passageiros - três jovens negros - e despertando a atenção de uma viatura da Polícia Civil de onde saem três policiais armados que, antes de qualquer esclarecimento, xingam e agridem os jovens, deixando, inclusive, um deles nú em via pública. Na delegacia para onde foram levados, mais uma sucessão de humilhações e desrespeitos. O que era para ser um fim de festa tranqüilo para os amigos, Ítala Correia, Saturnino Silva e Henrique dos Santos, virou um pesadelo que tem custado sair da lembrança dos jovens.
Na madrugada de sábado para domingo, 26, após assistirem ao show da Banda Lampirônicos, no Centro Histórico de Salvador, os jovens, todos moradores do bairro da Boca do Rio, resolveram pegar um táxi, para garantir mais conforto e segurança na volta para casa. Ledo engano. Entraram no Corsa JRA 1505, do taxista César Augusto da Silva Purificação Santos, de 49 anos (Alvará A-1753), no Terreiro de Jesus. Próximo dali, após passar pelo Campo da Pólvora, o motorista iniciou uma crise de pânico, gritando e demonstrando medo.
A princípio, os jovens tentaram acalmar o taxista, pois pensaram se tratar de algum repentino problema de saúde. No início da Ladeira da Fonte Nova, o motorista, ao avistar uma viatura – um Eco Sport da Delegacia do Adolescente Infrator / DAI, parou o taxi e saiu gritando que estava sendo assaltado. 'Até então, ainda não entendíamos o que estava ocorrendo. Primeiro pensamos que ele passava mal, estava tendo uma crise de epilepsia. Depois pensamos que o carro estava sendo assaltado por alguém que estava do lado de fora. Foi uma tensão terrível', explica com tristeza a produtora cultural Ítala Correia, de 21 anos.
Quando os jovens conseguiram sair do carro, já que o motorista havia travado todas as portas, já encontraram três policiais com armas em punho apontadas para eles. 'A partir daí foi muito xingamento, humilhação. Revistaram minha amiga de forma abusiva, levantando a roupa dela e xingando-a de puta, vagabunda e outros palavrões. Tive que ficar nú em plena rua', relembra o garçom, Saturnino Silva, de 30 anos.
Na confusão para sair do carro, Ítala caiu e bateu o queixo no chão. Mesmo sangrando, a jovem continuou a ser agredida verbalmente pelos policiais, atendendo ao desespero do taxista que continuava afirmando que os jovens o assaltariam. A jovem foi atendida no 5º Centro de Saúde, no Vale dos Barris, e levou cinco pontos no queixo, além de apresentar manchas roxas pelo corpo.'Como eu já sai do carro correndo, pois achava que nós é que seríamos assaltados, os policias apontaram a arma para mim e chegaram a engatilhar. Tive que me jogar no chão. Por pouco não fui morto', conta o jogador de basquete Henrique dos Santos, de 28 anos, que havia participado, na manhã de sábado, do campeonato de Basquete de Rua, promovido pela Central Única das Favelas – CUFA. Policiais da 1º Delegacia, no Complexo dos Barris, alegaram que a roupa do esportista (camisa e bermuda largas), foram as razões para despertar o medo no taxista.
'Também, olhem como vocês estão vestidos, olhem para o cabelo de vocês, era o que dizia um dos policiais que nos atenderam na Delegacia, justificando a ação do taxista', conta Henrique.
Os jovens acreditam que a ação policial, ainda na Ladeira da Fonte Nova, só não foi pior porque o tio de Ítala, o comerciante do Pelourinho, Wilson Santos, também morador da Boca do Rio, conduzia seu automóvel, junto com a esposa, e acompanhava o táxi que levava os jovens. Ao ver a movimentação policial, Wilson soltou do carro e se colocou na frente dos agentes, entre as armas e os jovens, tentando convencer os policiais do equívoco que ocorria.
No Boletim de Ocorrência, assinado pelo agente Júlio César dos Santos Batista, está descrita a calúnia e simulação de assalto, com a alegação do taxista de que 'os jovens fizeram movimentos bruscos dentro do carro'. Os amigos explicam que o próprio motorista perguntou se havia alguma porta aberta e todos foram verificar, respondendo negativamente. Depois disso, o condutor travou todas as portas e iniciou o desespero repentino.
Os três jovens já deram queixas em todas as instâncias que tiveram acesso: como o Disk Racismo, a Gerência de Táxi da Prefeitura de Salvador – GETAXI e o Procon, ainda restando ir à Corregedoria da Polícia Militar e ao Ministério Público. Eles esperam que a ação preconceituosa do taxista e a abordagem abusiva dos policiais não fiquem impunes. 'Somos jovens de bem, trabalhamos, não usávamos drogas, nem estávamos cometendo nenhum delito.
Toda a suspeita e agressão foram motivadas pela nossa cor, nossos cabelos. É um absurdo que ainda tenhamos que conviver com atitudes como essa', revoltasse Ítala. 'Poderíamos estar todos mortos. Aí seria alegado que estávamos envolvidos com o tráfico de drogas. Já imagino as manchetes: Tentativa de assalto termina com morte de três assaltantes' , assustasse Saturnino, referindo-se às práticas constantes no noticiário baiano, quando se trata do assassinado de jovens negros da periferia.
(André Santana)
http://www.correionago.com.br/destaques.php?inot=169
Um taxista, motivado pelo racismo, simula uma tentativa de assalto, acusando os passageiros - três jovens negros - e despertando a atenção de uma viatura da Polícia Civil de onde saem três policiais armados que, antes de qualquer esclarecimento, xingam e agridem os jovens, deixando, inclusive, um deles nú em via pública. Na delegacia para onde foram levados, mais uma sucessão de humilhações e desrespeitos. O que era para ser um fim de festa tranqüilo para os amigos, Ítala Correia, Saturnino Silva e Henrique dos Santos, virou um pesadelo que tem custado sair da lembrança dos jovens.
Na madrugada de sábado para domingo, 26, após assistirem ao show da Banda Lampirônicos, no Centro Histórico de Salvador, os jovens, todos moradores do bairro da Boca do Rio, resolveram pegar um táxi, para garantir mais conforto e segurança na volta para casa. Ledo engano. Entraram no Corsa JRA 1505, do taxista César Augusto da Silva Purificação Santos, de 49 anos (Alvará A-1753), no Terreiro de Jesus. Próximo dali, após passar pelo Campo da Pólvora, o motorista iniciou uma crise de pânico, gritando e demonstrando medo.
A princípio, os jovens tentaram acalmar o taxista, pois pensaram se tratar de algum repentino problema de saúde. No início da Ladeira da Fonte Nova, o motorista, ao avistar uma viatura – um Eco Sport da Delegacia do Adolescente Infrator / DAI, parou o taxi e saiu gritando que estava sendo assaltado. 'Até então, ainda não entendíamos o que estava ocorrendo. Primeiro pensamos que ele passava mal, estava tendo uma crise de epilepsia. Depois pensamos que o carro estava sendo assaltado por alguém que estava do lado de fora. Foi uma tensão terrível', explica com tristeza a produtora cultural Ítala Correia, de 21 anos.
Quando os jovens conseguiram sair do carro, já que o motorista havia travado todas as portas, já encontraram três policiais com armas em punho apontadas para eles. 'A partir daí foi muito xingamento, humilhação. Revistaram minha amiga de forma abusiva, levantando a roupa dela e xingando-a de puta, vagabunda e outros palavrões. Tive que ficar nú em plena rua', relembra o garçom, Saturnino Silva, de 30 anos.
Na confusão para sair do carro, Ítala caiu e bateu o queixo no chão. Mesmo sangrando, a jovem continuou a ser agredida verbalmente pelos policiais, atendendo ao desespero do taxista que continuava afirmando que os jovens o assaltariam. A jovem foi atendida no 5º Centro de Saúde, no Vale dos Barris, e levou cinco pontos no queixo, além de apresentar manchas roxas pelo corpo.'Como eu já sai do carro correndo, pois achava que nós é que seríamos assaltados, os policias apontaram a arma para mim e chegaram a engatilhar. Tive que me jogar no chão. Por pouco não fui morto', conta o jogador de basquete Henrique dos Santos, de 28 anos, que havia participado, na manhã de sábado, do campeonato de Basquete de Rua, promovido pela Central Única das Favelas – CUFA. Policiais da 1º Delegacia, no Complexo dos Barris, alegaram que a roupa do esportista (camisa e bermuda largas), foram as razões para despertar o medo no taxista.
'Também, olhem como vocês estão vestidos, olhem para o cabelo de vocês, era o que dizia um dos policiais que nos atenderam na Delegacia, justificando a ação do taxista', conta Henrique.
Os jovens acreditam que a ação policial, ainda na Ladeira da Fonte Nova, só não foi pior porque o tio de Ítala, o comerciante do Pelourinho, Wilson Santos, também morador da Boca do Rio, conduzia seu automóvel, junto com a esposa, e acompanhava o táxi que levava os jovens. Ao ver a movimentação policial, Wilson soltou do carro e se colocou na frente dos agentes, entre as armas e os jovens, tentando convencer os policiais do equívoco que ocorria.
No Boletim de Ocorrência, assinado pelo agente Júlio César dos Santos Batista, está descrita a calúnia e simulação de assalto, com a alegação do taxista de que 'os jovens fizeram movimentos bruscos dentro do carro'. Os amigos explicam que o próprio motorista perguntou se havia alguma porta aberta e todos foram verificar, respondendo negativamente. Depois disso, o condutor travou todas as portas e iniciou o desespero repentino.
Os três jovens já deram queixas em todas as instâncias que tiveram acesso: como o Disk Racismo, a Gerência de Táxi da Prefeitura de Salvador – GETAXI e o Procon, ainda restando ir à Corregedoria da Polícia Militar e ao Ministério Público. Eles esperam que a ação preconceituosa do taxista e a abordagem abusiva dos policiais não fiquem impunes. 'Somos jovens de bem, trabalhamos, não usávamos drogas, nem estávamos cometendo nenhum delito.
Toda a suspeita e agressão foram motivadas pela nossa cor, nossos cabelos. É um absurdo que ainda tenhamos que conviver com atitudes como essa', revoltasse Ítala. 'Poderíamos estar todos mortos. Aí seria alegado que estávamos envolvidos com o tráfico de drogas. Já imagino as manchetes: Tentativa de assalto termina com morte de três assaltantes' , assustasse Saturnino, referindo-se às práticas constantes no noticiário baiano, quando se trata do assassinado de jovens negros da periferia.
(André Santana)
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